Uma sessão sem consenso entre público e oradores. Entre temas como a necessidade de autorregulação e os direitos e deveres dos jornalistas, ficou tudo em aberto.

Um congresso para romper com o “parece que está tudo bem”. A frase foi dita por Cesário Borga, antigo jornalista da RTP, na sessão que fechou o 2º dia do Congresso dos Jornalistas e se debruçou sobre os temas da regulação, ética e deontologia.

Após uma manhã em que a precariedade foi relativizada pelos diretores de informação, à tarde falou-se de “um «kit» de sobrevivência ética para sobreviver a este presente do jornalismo”. O orador convidado, Joaquim Fidalgo, professor da Universidade do Minho, abordou os problemas recentes com as notícias falsas, o novo conceito de pós-verdade, e os temas quentes de 2016: o Brexit, os refugiados e as eleições norte-americanas.

Falou ainda do “perigo de o jornalismo se tornar irrelevante”. E alertou: “é necessário regressar à ética”. Para São José Almeida, presidente do Conselho Deontológico do SJ, o jornalismo nunca é objetivo, mas deve ser sempre “isento e imparcial”, sem nunca “perder a noção de responsabilidade”.

Responsabilidade essa que foi invocada por Paulo Martins, docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, ao falar de direitos e deveres dos jornalistas, entre normas legais e a não identificação de menores em peças. Esse tema ficou realçado por um acórdão judicial “sobre uma das mais sensíveis situações éticas – a utilização de crianças em peças jornalísticas”, tal como abordado na intervenção de Alfredo Maia, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas (SJ).

Casos e heróis

“A ética é o ingrediente essencial da competência jornalística”, disse Luís Nascimento, citando a tese de doutoramento de Joaquim Fidalgo. Mas alguns casos colocam-na em causa. O jornalista deu como exemplos recentes a cobertura da fuga de Pedro Dias, do desaparecimento de Rúben e o direto com o vendedor de pizzas à porta do prédio de José Sócrates.

No pódio esteve também Otília Leitão, jornalista, que alertou para a cláusula de consciência, utilizada apenas por 12 vezes em 40 anos em Portugal, e em que somente dois dos casos tiveram provimento. “Quem a usou é quase um herói”, afirma Otília Leitão, porque “em tempo de precariedade, em que o trabalho é para subsistir, quem é que a vai pedir?”.

Também Carlos Camponez, docente da Universidade de Coimbra, indagou o Congresso e os seus participantes: “Como é que resolvemos os problemas?”. Deixou ainda espaço para três pequenas questões sobre a representação sindical, o Conselho de Imprensa e o acesso à profissão e formação profissional. Carlos Camponez sugeriu ainda que os congressos se tornem regulares, apontado um intervalo máximo de cinco anos.

Jacinto Godinho, membro da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, levantou um outro problema: o facto de “não haver muito jornalismo sobre jornalismo”. Considera que o jornalismo não se tem investigado e conclui: “nós não nos conhecemos”.

Coube a Paulo Pereira, um jornalista no desemprego, terminar a sessão, ao parafrasear o protagonista de «I, Daniel Blake», de Ken Loach.”Não sou um cliente, um consumidor ou um utilizador de serviço. Não sou um calão, um patife, um pedinte ou um ladrão. Não sou um número da Segurança Social nem uma luzinha que pisca num ecrã. Pago as minhas dívidas, nem um tostão a menos e sinto orgulho nisso. Não me curvo perante seja quem for, olho-os a todos de frente. Não aceito nem procuro caridade. O meu nome é Paulo Pereira, sou um homem, não um cão. E, por isso, exijo os meus direitos. Exijo que me tratem com respeito. Eu, Paulo Pereira, sou um cidadão, nada mais, nada menos”.