A manhã do terceiro dia do 4º Congresso dos Jornalistas portugueses contou com uma sessão onde vários profissionais da área do jornalismo refletiram, de forma crítica, sobre as condições de trabalho dos jornalistas.

As intervenções da manhã foram acima de tudo dados, desabafos, denúncias e partilha de experiências entre profissionais. A sessão, “Condições de Trabalho dos Jornalistas”, contou com a participação de 14 intervenientes (um orador convidado, um membro da Comissão Científica do Congresso, oito comunicações, três membros do painel e um moderador). As oito comunicações foram de Catarina Gomes, Diana Andringa, Nuno Janeiro, João Torgal, Maria José Garrido, Mónica Santos, Rúben Martins e Salomé Pinto, todos eles jornalistas, ex-jornalistas ou jornalistas em “condições transitórias”.

Miguel Crespo, jornalista, professor e investigador no ISCTE-IUL, abriu a sessão com a divulgação dos dados do inquérito (o maior alguma vez realizado em Portugal), de que é co-autor, sobre as condições de trabalho dos jornalistas vistas pelos próprios. Este estudo revela, entre muitas outras questões, o medo em perder o emprego (36,6%), o desemprego (7,9%), os profissionais sem contrato fixo (33,4%) e o salário. Relativamente a este último aspeto: 23,3% recebem entre €1001 e €1500, 23,9% recebe entre €709 e €1000 e, por último, 21,8% recebe entre €501 e €700.

Miguel Crespo Foto: Joana Ochoa

A sensibilidade no jornalismo e a falta de apoio ao trauma

Das comunicações presentes na sessão de debate sobre as condições de trabalho dos Jornalistas, com Daniel Belo da Antena 1 como moderador, as duas primeiras comunicações fizeram um apelo à humanização da profissão.

Catarina Gomes, do jornal “Público”, chamou a atenção aos jornalistas para a “falta de tempo para sentir” registada nas redações, afirmando que as rotinas da classe cultivam “seres insensíveis e sem tempo para compaixão”. Denunciou a diminuição de saídas da redação dos jornalistas, que permanecem sentados, presos a telefonemas escassos, na maioria das vezes com fontes institucionais.

“A indiferença nos jornalistas torna os cidadãos indiferentes”- Catarina Gomes

A disponibilidade emocional foi o tema da comunicação da jornalista do “Público” que defendeu que as rotinas pouco ativas das redações são a causa da diminuição do contato direto com os cidadãos e as suas histórias. Catarina afirmou ainda não acreditar na “neutralidade emocional” e que a “capacidade de comover” diferencia um bom profissional.

Catarina Gomes Foto: Joana Ochoa

O relato jornalístico de campos de concentração é um exemplo de algumas das histórias dramáticas que criam o “nó na garganta”, como disse Diana Andringa, ex-jornalista, na sua comunicação que alerta para a falta de apoio aos jornalistas que sofrem de stress pós-traumático.

A obrigação de informar sobre dramas sociais e vítimas de tragédias tem impacto nos jornalistas. Diana Andringa propôs a criação de uma associação que apoie os jornalistas portugueses que se encontram na recuperação do impacto de situações dramáticas.

Diana Andringa Foto: Joana Ochoa

A situação dos jovens jornalistas

Dois jovens comunicadores marcaram a manhã e fizeram com que a audiência se levantasse para aplaudir: João Torgal e Rúben Martins. Ambos focaram as dificuldades e falta de condições laborais que este setor enfrenta.

João Torgal, jornalista na RTP, deu voz a 34 colegas: “nós somos a voz, a cara e as mãos do serviço público de rádio e de televisão em Portugal”. O nome de cada um deles foi mencionado no início da intervenção como forma de alertar que todos fizeram questão de assinar a denúncia feita. Esta comunicação destacou o medo que estes profissionais sentem em poder perder o emprego, a falta de apoio por parte da entidade empregadora, a inexistência de um seguro de saúde, a falta de tempo e estabilidade financeira para constituir família (cerca de 50% dos jornalistas é solteiro e não tem filhos), falta de direitos de maternidade/paternidade e, por fim, falou da revolta e exaustão sentida entre todos.

João Torgal Foto: Joana Ochoa

“Os escravos” foi o mote principal do recém-licenciado em jornalismo Rúben Martins, que alertou para “as largas dezenas” de profissionais que “pagam para trabalhar”. Apesar de considerar que tem uma situação profissional estável, Rúben fez questão de falar em nome dos colegas que “saltam de um estágio para o outro” e que acabam por não entrar no quadro, afirmando que “também eles têm de ter aqui voz”.

“ Chegam às redações em grupos de três ou quatro e dizem-lhes «só há lugar para um». Começam aí os verdadeiros “Jogos da Fome” numa versão redação. Colegas tornam-se adversários mas, por fim, não fica nenhum e vem outra fornada de estagiários”- Rúben Martins

A multiplicidade de plataformas é para Rúben um motivo para apostar nos recém-licenciados que “são a geração mais bem preparada de sempre”, e aproveitou para elogiar a redação do Congresso (Media Lab) constituída por 80 estudantes de jornalismo, apoiados por 34 professores e profissionais da área.

Rúben Martins Foto: Joana Ochoa

O que diz o painel

Depois das oito intervenções foi a vez de dar voz à mesa. Sofia Branco, presidente do Sindicato dos Jornalistas e jornalista na agência LUSA, começou por destacar as comunicações de João Torgal e Rúben Martins e salientar a emoção que sente: “É uma vergonha que isto aconteça, principalmente na rádio e televisão pública que eu pago”. Sofia alertou para a necessidade de que a Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT) intervenha “já” e revelou que o Sindicato está a negociar com a Associação de Imprensa um contrato coletivo de trabalho.

“[Os atuais estagiários e recém-licenciados] são o futuro do jornalismo”- Sofia Branco

fotojornalista |

O fotojornalista Rodrigo Cabrita, após uma proposta que considerou indecente do jornal “i”, em 2015, torna-se freelancer, por acreditar que após 15 anos de experiência profissional não merecia a oferta do jornal. “O romantismo ainda tem que vencer o pragmatismo”, disse Rodrigo, quando se referiu ao “tsunami de coisas más” que atravessa o jornalismo, e fez um último apelo de consciencialização às administrações dos órgãos de comunicação social.

Rodrigo Cabrita Foto: Joana Ochoa

“É preciso viver do sonho e neste momento sobrevivemos do sonho”, afirmou a jornalista da Antena 1, Cristina Santos, que se encontra com um vínculo precário há dois anos no grupo RTP e integra o painel da sessão.

Cristina Santos Foto: Joana Ochoa

As palavra dos congressistas

A sessão 4 contou com uma plateia bastante interventiva (uma hora e meia de discussão entre congressistas e o palco). A sala encheu-se, e quem assistiu quis também partilhar o caso pessoal ou casos de colegas que se encontram na precariedade. Falou-se do desemprego, de freelancers que trabalham “de pijama” a partir de casa, denunciou-se a diferença entre “trabalhador” e “colaborador” que era tida em conta até há pouco tempo na cantina da RTP, onde os preços praticados eram diferentes para cada grupo (segundo uma congressista, jornalista “trabalhadora” na RTP), e falou-se do medo dos baixos valores da reforma dos jornalistas aposentados.