Carlos Veiga Pereira é o jornalista presente no 4.º Congresso dos Jornalistas com a carteira profissional número 8, a mais antiga. Aos 88 anos continua a escrever alguns textos para órgãos de comunicação social.

Nasceu em 1927 em Angola, mas foi em Portugal que iniciou a sua carreira. Foi em 1954 que decidiu enveredar pela profissão, no jornal O Primeiro de Janeiro, de onde partiu para o Diário Ilustrado e, de seguida, foi assessor do Secretário de Estado da Comunicação Social, João Gomes. Entre 1962 e 1972 esteve exilado em Paris, cidade onde viveu 10 anos sem nunca descurar da profissão. Trabalhou n’Office de radiodiffusion-télévision française (ORTF) – actual Radio France – e foi monitor num Centro de Formação de Jornalistas.

Em 1972 decide regressar a Portugal e ao Diário de Lisboa, no qual se torna chefe de redação até se demitir em 1975 por não concordar com a linha de orientação do jornal. Foi diretor de informação na RTP e, posteriormente, diretor de informação na ANOP, onde se manteve até ao término da sua carreira. Atualmente, apesar de reformado, escreve alguns textos – ainda que raramente – a título freelancer para alguns órgãos de comunicação social.

“Os computadores causaram no início um grande pânico”

Em meados da década de 80, Carlos Veiga Pereira estava na ANOP quando foram introduzidos os primeiros computadores nas redações. De acordo com o jornalista, quando estes equipamentos chegaram aos meios de comunicação social em Portugal “causaram no início um grande pânico” entre os profissionais mais velhos. Ao descrever a sua experiência pessoal na era digital, relata que a adaptação foi positiva relativamente aos colegas da mesma idade.

Neste contexto, Carlos Veiga Pereira aponta ainda para a “falta de aproveitamento dos jornalistas de todas as possibilidades prodigiosas da Internet”, nomeadamente do acesso às várias perspetivas do contexto internacional quando são abordados assuntos problemáticos, e para a falta de controlo na Internet.

Ricardo Dias (Cenjor)

É necessário rever a legislação sobre a comunicação social

Questionado sobre as principais diferenças entre o jornalismo na atualidade e o jornalismo de antigamente, Veiga Pereira mencionou a “evidente ausência da censura”, a “evolução catastrófica na questão do desaparecimento de jornais” e a existência de um “enorme desfasamento entre a realidade e a legislação” em vigor. Neste capítulo, considera que “a legislação sobre a comunicação social precisa de ser revista”.

Comparando a atividade da Alta Autoridade para Comunicação Social (AACS) com a da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), Carlos Veiga Pereira destaca a diminuição de representatividade no seio da ERC. “Antigamente existiam representantes dos consumidores, patrões, jornalistas e Estado. Agora é somente designada pela Assembleia da República. Adquiriu um caráter muito mais político”, considera.

Questões em aberto

De acordo com Carlos Veiga Pereira verifica-se uma crescente falta de rigor na informação que “influencia a credibilidade do jornalismo” e reforça a necessidade de existir “uma maior diversidade de fontes para aceder a diferentes perspetivas”.

Como exemplo para a falta de rigor, Carlos Veiga Pereira menciona o recente evento dos cortejos pelo falecimento de Mário Soares. “Falavam numa multidão de pessoas quando se via várias vezes na televisão muito pouca gente nas ruas”, explica. No que concerne a necessidade de diversificar as fontes, o jornalista refere “uma pessoa, para conhecer o que se passa, tem que conhecer diferentes versões”.

O seu 4.º Congresso

Carlos Veiga Pereira participou nos quatro Congressos dos Jornalistas já organizados, referindo que o 4.º Congresso tem uma linha de orientação única. “Reunir esforços das várias entidades – diretores, jornalistas, empresários, Estado – é algo que nunca tinha sido feito. “É uma novidade”, refere.

Com 88 anos, Veiga Pereira frisa que “apesar da idade, as pessoas não se devem ausentar dos problemas do Sindicato”. Para o jornalista a profissão é algo que nunca se deixa. É por isso que mesmo reformado continua a querer estar presente nas discussões sobre o jornalismo.