Na última sessão do 4º Congresso dos Jornalistas Portugueses – “Afirmar o jornalismo: Independência e credibilidade” – o jornalismo de investigação foi também alvo de debate. Novas organizações vocacionadas para esta área do jornalismo nascem por todo o mundo, mas o jornalista Rui Araújo traça um futuro negro à possibilidade de um consórcio com uma forte participação portuguesa. Quisemos perceber qual a importância dos consórcios de jornalistas e relembramos alguns exemplos.

“São uma mais-valia para a democracia”. Assim descreve Rui Araújo os consórcios de investigação, apontando que, no caso nacional, a participação é fraca. Para o membro do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (CIJI), em Portugal existe “um olhar sobre o mundo que é o olhar das grandes agências internacionais. Perdemos grande parte da nossa credibilidade porque, para além do pensamento único do imediatismo, da uniformidade, deixámos de questionar e de nos indignarmos.”

Por isso tece também críticas a um consórcio em que Portugal esteja verdadeiramente representado. Pela falta de exigência do público português, Rui Araújo duvida que haja futuro para qualquer consórcio ou publicação nacionais dedicados ao jornalismo de investigação. “Tenho dúvidas que os portugueses, ao contrário dos espanhóis e dos franceses, estejam dispostos a pagar por essa informação”, explica. A falta de investimento é também um travão. Ao dizê-lo, o jornalista baseia-se na sua tentativa em criar um consórcio ibérico. Os jornalistas espanhóis estavam prontos a disponibilizar um orçamento, mas o projecto nunca saiu da gaveta. “Em Portugal não arranjei ninguém para investir”, justifica.

Ricardo Rodrigues e Rui Araújo foram oradores no painel da manhã. Foto: Joana Ochoa (Media Lab – ESCS)

Nesse âmbito, a jornalista da SIC Cândida Pinto apela à criação novos modelos e formas de financiamento. O valor que o jornalismo de investigação junta ao panorama da profissão carece de investimento e jornalistas em ação. “Os consórcios podem ser uma forma de viabilizar a investigação, sendo que a investigar é difícil e moroso, consome dinheiro e recursos”, afirma.

Sofia Branco, presidente do Sindicato de Jornalistas, concorda e acrescenta a importância de globalizar o jornalismo neste âmbito. “É interessante que os jornalistas percebam o poder que têm em transformar uma investigação, que podia ser local ou nacional, em âmbito internacional. Porque há aqui preocupações que são transversais ao mundo inteiro”. A jornalista acredita que a profissão deve unir-se em torno do interesse público e deixar a competição e a concorrência de lado. O jornalismo de investigação, como reconhece Sofia Branco, “não é uma prioridade nas redações”.  Constata que a escassez de tempo e falta de recursos são muitas vezes “desculpa para não ser feito.”

Alguns dos casos mais mediáticos

Os meios para investigar são difíceis de conseguir, mas os resultados são visíveis. Nos últimos anos, observámos mais do que um exemplo de sucesso. São provas de que o jornalismo de investigação ganha novos contornos quando produzido com uma rede de parcerias.

Os Panama Papers foram uma das investigações mais mediáticas do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, trazendo à luz em 2016 uma extensa lista de nomes ligados a paraísos fiscais. As contas bancárias em questão, criadas através da companhia Mossack Fonseca, do Panamá, poderão ter sido utilizadas para fuga a impostos. Jornalistas do jornal Expresso e da TVI também estiveram envolvidos.

Deste consórcio de jornalistas também resultaram os Swiss Leaks. O processo começou quando o jornal Le Monde obteve uma versão de documentos entregues ao governo francês por um delator do banco britânico HSBC. A instituição terá apoiado manobras de evasão fiscal em contas suíças. A partir desse momento, a informação foi partilhada entre uma equipa global de jornalistas do consórcio para que pudesse chegar ao conhecimento público.

Em 2014, o Luxemburgo viu-se na mira de fogo do CIJI com o LuxLeaks. Nesse ano, foi revelada uma série de acordos financeiros mantidos com mais de 350 empresas internacionais com objetivo de evasão fiscal, num conjunto de manobras consideradas legais pelo país.

Já a colaboração internacional levada a cabo pela European Investigative Collaborations revelou nos últimos dois anos os Football Leaks, em que descrevem “truques de impostos” por parte de vários futebolistas europeus que lhes permitiram evitar pagar certos impostos relacionados com contratos assinados com clubes e patrocinadores. A parceria de mais de uma dezenas de órgãos de comunicação, entre os quais o jornal Expresso, permitiu a publicação de vários artigos sobre acordos secretos ou contratos com transações financeiras que a investigação descreve como “obscuras”.