Mesmo no final de Matem o Mensageiro, de Michael Cuesta, Gary Webb, repórter do diário San Jose Mercury News, está a discursar na cerimónia em que recebeu o prémio de Jornalista do Ano, concedido pelos seus pares, e diz que quando se faz jornalismo de investigação é inevitável que se “incomodem algumas sensibilidades”. A série de artigos intitulada Dark Alliance que Webb publicou no seu jornal em 1996, onde alegava que nos anos 80, os Contra nicaraguenses, com o beneplácito e a colaboração da CIA, tinham introduzido e vendido cocaína em enormes quantidades nos EUA (em especial nos bairros mais pobres e étnicos de los Angeles), para poderem financiar a guerrilha contra o governo sandinista, incomodou tais e tão importantes sensibilidades, que Webb (interpretado por Jeremy Renner) se demitiu do jornal em 1997, acabando por se suicidar em 2004 (coisa estranha, com dois tiros na cabeça).

Tristemente, não foi só por parte de responsáveis da CIA e do governo dos EUA que Gary Webb se viu avisado, pressionado e implicitamente ameaçado durante e após a publicação da sua investigação. Também alguns dos grandes jornais americanos, como o The Los Angeles Times, The Washington Post ou o The New York Times tiveram as suas sensibilidades incomodadas pela “cacha” conseguida por um obscuro jornalista de um diário regional, e afadigaram-se para o desacreditar, e questionar e menorizar a solidez e a importância da história. Cuesta chega ao ponto de sugerir que a CIA pressionou alguns daqueles jornais para que agissem contra Webb. Por outro lado, os próprios editores e superiores do jornalista no San Jose Mercury News não terão tido a confiança e a coragem suficientes para o defender, e à sua investigação, e para o encorajar a continuá-la. Acabaram por o deixar cair, relegando-o para tarefas menores, o que levaria Gary Webb a apresentar a demissão, em 1997.

Não é fácil expôr com clareza num filme de apenas duas horas uma investigação tão complexa, com tantas zonas de sombra, asserções contraditórias e testemunhas que negam num dia o que garantiram a pés juntos no dia anterior. Michael Cuesta e o argumentista Peter Landesman, trabalhando a partir de dois livros, aquele que Gary Webb publicou em 1999, Dark Alliance: The CIA, the Contras and the Crack Cocaine Explosion, e o de Gary Schou, que dá o título a este filme, editado em 2006, procuram manter-se fiéis e rigorosos às linhas gerais da história, embora não consigam evitar, em nome das necessidades dramáticas, das limitações temporais e dos tropos do “filme de jornalismo” simplificações, compressões, liberdades narrativas e algumas omissões. Por exemplo, nas legendas finais de Matem o Mensageiro, que contam o que aconteceu a Gary Webb após a sua demissão, lê-se que nunca mais trabalhou em jornalismo, o que não corresponde à verdade. Não só ele continuou a fazer reportagens de investigação em regime de freelance, para publicações de prestígio como a revista Esquire, como em 2004 ingressou na redacção do semanário Sacramento News & Review, onde continuou a trabalhar na sua área de especialidade. O filme usa e abusa também do lugar-comum da estenografia visual informativa, através da jiga-joga das montagens de imagens de actualidade e noticiários,

Cuesta não quis encerrar a figura de GaryWebb no cliché do jornalista incansável, intrépido e solitário, que quer expor a verdade, contra tudo e contra todos se necessário, um imaculado cruzado da informação livre. O Webb de Matem o Mensageiro, e tal como Jeremy Renner o vive, tem muitas qualidades, mas é também um homem que ferve em pouca água, sem dotes diplomáticos, impaciente, e contra o qual funciona o não ter a tarimba de um insider da cena política de Washington. Se alguma coisa fica desta fita, é um aviso. Um jornalista tem que contar não apenas com a oposição, o bloqueio e até as ameaças das forças em relação às quais se institui como contrapoder, mas também, e muitas vezes, com a incompreensão, a mesquinhez, a inveja e a pusilanimidade de administrações, direcções, editores e até dos próprios colegas.