O jornalismo em papel, centenário, entrou em crise com a emergência dos media digitais. Difundir notícias online é mais barato, mais rápido e permite atualizações ao minuto. A crise da imprensa tradicional instalou-se, e as suas causas e prováveis desenvolvimentos não são consensuais. O advento dos novos media divide opiniões e a discussão não tem fim à vista. Há quem os defenda como o futuro e quem os culpe pela crise do jornalismo.

Para Luís Rosa, redator principal do jornal digital Observador “não vale a pena insistir com o papel”. Na opinião do jornalista, as mudanças resultantes da utilização dos novos média são “bastante positivas” e o jornalismo atual não é melhor, nem pior do que o do passado, é apenas diferente e até com algumas vantagens.

O jornalista fundamenta o seu otimismo nas novas formas de fazer jornalismo, afirmando que o multi-tasking é um enriquecimento. Os jornalistas já não se limitam apenas a escrever, multiplicam-se por várias tarefas: falam para a câmara, fazem podcasts, e “são capazes de tornar as peças mais atraentes visualmente”. E “se é nas plataformas digitais que os leitores procuram as notícias, então, é para lá que temos de ir”, defende.

Um modelo viável?

Um estudo de 2012 da Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação (APCT), aponta para uma acentuada queda na venda de jornais impressos nos últimos dez anos, sobretudo dos semanários, com perdas na ordem dos 39%. As audiências estão cada vez mais na Internet e, em particular, nas redes sociais. Os leitores até aos 35 anos, os chamados millennials, não sabem o que é viver sem ligação à rede e os mais jovens já nasceram na era do Google. Dados que reforçam as convicções do jornalista de Luís Rosa. O papel deixou de ser uma prioridade, cedendo espaço ao modelo digital, considera.

Mas há quem tenha dúvidas sobre a viabilidade desses novos suportes. Walter Dean, director pedagógico do Committee of Concerned Journalists, considera que a crise do jornalismo resulta do advento da Internet.

Para o jornalista norte-americano, o novo meio representa um modelo inadequado de negócio, por duas razões: por um lado, “a maior parte da receita fica para os anunciantes” e, por outro, “deixou de ser preciso pagar pelo trabalho dos jornalistas, está tudo disponível gratuitamente na Internet”. À medida que o jornalista perde a função de gatekeeper, de selecionador da informação que interessa ou não difundir, as empresas jornalísticas deixam de ser lucrativas e entram em rutura, avisa.

Uma “crise intelectual”?

Walter Dean alerta também para o facto de mais informação não significar necessariamente mais conhecimento do que se passa no mundo. “Estamos cheios de informação, porém, não estamos mais inteligentes”, assegura. O jornalista e investigador lamenta o facto de a maioria dos leitores não fazer um esforço para encontrar informação credível. Walter Dean considera, por isso, que a crise do jornalismo não é apenas financeira, mas fundamentalmente uma “crise intelectual” transversal.

Por um lado, os leitores não refletem de forma crítica, nem avaliam a grande quantidade de conteúdos que recebem. Por outro, os jornalistas são hoje menos exigentes na busca da informação e “perderam o contacto humano” com as suas fontes, diz Walter Dean. Os profissionais, argumenta, “têm agido mais como secretários do que propriamente como repórteres. O trabalho tem sido basicamente realizado sentado em frente ao computador”.

Rui Guerreiro, jornalista há 15 anos e formador nas áreas da escrita e dos média social no Cenjor, discorda e, ao contrário de Walter Dean, considera que o cenário online “aumentou a responsabilidade do jornalista” e, “ao mesmo tempo, fê-lo ver que, cada vez mais, o leitor é alguém crítico e participante, é mais exigente e requer mais do jornalista”.

O formador entende que os valores do jornalismo tradicional devem estender-se também ao digital. Os jornalistas devem cumprir “sempre os princípios básicos de verificação das fontes e da verdade”, defende. No fundo, acrescenta, “as redes sociais são só mais um canal, não são impeditivas da qualidade” jornalística.

Entre a esperança e o ceticismo, parece haver uma única certeza: o futuro do jornalismo mantém-se em aberto.