Há uma frase fundamental neste filme de Bill Condon, que justifica que o título seja “O Quinto Poder” e não o quarto, o do jornalismo: “A edição reflete parcialidade”. Não é Julian Assange (Benedict Cumberbatch) quem a diz, mas sim Daniel Berg (Daniel Brühl), o parceiro alemão que ele escolheu para o ajudar a fazer da WikiLeaks aquilo que é hoje. A cena passa-se em 2008, quando a plataforma de submissão anónima de documentos recebeu milhares de identidades dos membros do Partido Nacionalista Britânico, de extrema direita. Daniel Berg estava extasiado com a oportunidade de fazer justiça e história com a ferramenta informática criada por Assange. E descarta com facilidade a pergunta que a namorada lhe faz: “É mesmo necessário divulgar as moradas e os números de telefone dessas pessoas? Alguém se pode magoar”, argumenta. Sem sorte. A doutrina de Assange era publicar os documentos em bruto, independentemente das consequências.

Ao longo dos 120 minutos de “O Quinto Poder” recordam-se algumas das maiores fugas de informação da história —  da guerra no Afeganistão e no Iraque aos 250 mil “telegramas diplomáticos” — ao mesmo tempo que se vão desvendando alguns episódios da vida de um homem enigmático, que cresceu numa seita na Austrália e que sonhava derrubar corruptos e ditadores com a ajuda dos whistleblowers.

“O Quinto Poder” é baseado em factos reais e, de uma forma curiosa, o realizador Bill Condon e o argumentista Josh Singer são transparentes em relação às fontes a que recorreram para montar a narrativa. Na última cena, vê-se Julian Assange confinado à Embaixada do Equador em Londres, onde vive desde agosto de 2012, a ser questionado numa entrevista sobre o que acha de um novo filme (aquele que o espectador está a ver) que irá sair sobre a WikiLeaks. O australiano desvaloriza-o, por se inspirar em duas obras anti-WikiLeaks: “WikiLeaks: Inside Julian Assange’s War on Secrecy”, da autoria dos jornalistas David Leigh e Luke Hardin, e “Inside WikiLeaks: My Time with Julian Assange at the World’s Most Dangerous Website”, do próprio Daniel Berg, escrito após a cisão com Assange. Porque, com o passar do tempo, o alemão passou a ter uma visão mais próxima do quarto do que do quinto poder.

”Eu existo porque vocês não fazem bem o vosso trabalho”, diz a certa altura Assange, assumindo a voz do jornalismo de cidadão, aos repórteres do The Guardian que o procuram. Questões como a crise dos media, os cortes no jornalismo de investigação e os prós e os contras de expor informação sensível em bruto mereciam, também, um trabalho melhor por parte de Bill Condon e Josh Singer. Quando o filme saiu para os cinemas, a WikiLeaks celebrou os fracos resultados de bilheteira. Ainda assim, achou por bem contar a sua versão da história, no documentário “Mediastan”, que contou com Julian Assange na produção. Mas esse fica para um próximo ciclo.

“O Quinto Poder”

Título original: “The Fifth Estate”

De: Bill Condon

Com: Benedict Cumberbatch, Daniel Brühl, Carice van Houten

Género: Drama, Biografia, Thriller

Classificação: M/12

Outros dados: EUA, ÍNDIA, BÉLGICA, 2013, Cores, 2h 8min