Eugénio Alves é jornalista há mais de quatro décadas. Foi um dos organizadores do 1º Congresso dos Jornalistas Portugueses, em 1983, e diz que as preocupações de antes e de agora são incomparáveis. Catarina Santos está na profissão há pouco mais de dez anos. Une-os o facto de nenhum deles ter, à partida, expetativas de que do Congresso saíssem soluções. Agora que os trabalhos estão no fim, ambos reconheceram que as pistas que foram dadas eram urgentes.

“Todos nós reconhecemos os problemas, mas era preciso dizer as coisas em voz alta”, diz Catarina Santos. A jornalista de multimédia da Rádio Renascença (RR) fala numa “classe muito pouco unida e solidária”, que já precisava de se confrontar e discutir problemas há muito tempo. Mas apesar de reconhecer o intenso trabalho que deu organizar o evento, Catarina Santos sente que faltou algo: “Gostava de ter visto [numa sessão] os editores de online e de multimédia”, por serem quem mais trabalha com os desafios da Internet, o imediatismo da informação e as redações precárias.

A primeira coisa que a jornalista vai fazer assim que o Congresso terminar é sindicalizar-se. Não sabe explicar o porquê de ter adiado tanto a decisão, mas sai com a esperança de que muitos outros façam o mesmo.

Eugénio Alves, que preside à Assembleia Geral do Clube dos Jornalistas, fala de grandes transformações. Lamenta o desaparecimento dos conselhos de redação e a perda de poder da classe: “Na época, os jornalistas tinham outra força. Eram temidos, respeitados e tinham acesso direto aos poderes. Não existiam assessores.” Recorda que no 1º Congresso havia apenas 1200 jornalistas mas que estavam “todos lá”. Agora, diz, a realidade é outra. “Estão cá muitos estudantes, muitos reformados. Mas poucos jornalistas”.

União entre dois mundos
Enquanto isto, num outro espaço do Cinema São Jorge, longe dos palcos, uma redação jovem fervilha. Pedro Coelho, grande repórter da SIC, foi quem teve, com Dina Soares, jornalista da RR, a ideia que deu origem à redação multiplataforma do congresso. O objetivo era simples. “Trazer a Academia para o Congresso” e “aproximar dois mundos que vivem muito separados”: o profissional e o universitário. A isso, Dina Soares acrescenta a preocupação que surgiu em chamar os estudantes, não só como observadores, mas também como participantes.

Nem tudo correu na perfeição e há lições a retirar, como a necessidade de maior planeamento, distanciamento crítico e acompanhamento dos estudantes, diz Pedro Coelho. Mas Dina Soares não esconde o orgulho: “Mais uma semana e estávamos a trabalhar como profissionais”.

Marcelo Teixeira tem 21 anos e é um dos alunos que integram a redação multiplataforma. Diz que a experiência reforçou uma ideia que já tinha: “A conversação entre os alunos, professores e profissionais é transversal”. Acredita que “o futuro das redações vai passar pelo que se vive aqui”. Quanto ao congresso, gostava que os diretores tivessem sido “mais confrontados, mais pressionados” a admitir “os problemas que a profissão atravessa”.

À porta da sala da redação do Congresso, André Lança, 29 anos, um dos membros do staff, olha com curiosidade para as capas dos pequenos jornais do congresso. Não está na área do jornalismo, mas considera-se um consumidor de informação atento. Tem dúvidas e muitas críticas a apontar à classe. Lamenta a “grande cobertura dada à desinformação” e critica o “espaço de opinião dado a figuras políticas que usam o horário nobre para limpar a imagem”. Mas acredita que só os jornalistas podem “implodir esta má estrutura tão bem montada”.

Nicolas Brites trabalha no bar do Cinema São Jorge e tem assistido de perto ao entrar e sair das salas do congresso. “São simpáticos, mas só comem empadas e tomam cafés. Não têm tempo para parar!”. E mais diz não saber sobre as centenas de jornalistas que por lá passaram.

80% dos inscritos estão empregados

Mais de 800 pessoas pisaram, durante quatro dias, as salas do Cinema São Jorge. De acordo com dados divulgados pela organização do congresso, quase dois terços são jornalistas: dos 496 que revelaram a situação profissional no ato de inscrição, 80,8% estão empregados. Os reformados (6,3%) e desempregados (7,3%) tiveram uma participação mais residual, num Congresso que revelou uma profissão caracterizada pelas más condições de trabalho e baixas expectativas de futuro. Quanto às idades, Carlos Veiga Pereira foi o congressista mais velho na plateia. Com 88 anos, foi diretor de Informação da RTP e da ANoP, além de ter integrado o Conselho de Imprensa.

Rui Barros