Uma discussão quente sobre as condições no acesso à profissão, em que os estágios curriculares foram classificados como “escravatura”, animou a sessão que abriu a tarde do 2º dia do Congresso dos Jornalistas.

Num congresso que conta com uma redação repleta de jovens com ambições jornalísticas, debateu-se um dos pontos que mais os preocupa no acesso à profissão: a falta de comunicação entre a academia e as empresas jornalísticas. As condições que os estágios curriculares oferecem são o reflexo desta falta de interação e acabam por dificultar a entrada no mercado de trabalho.

“Os estágios devem ser na redação”, considera Manuel Pinto, professor da Universidade do Minho. Mas “é evidente que há modos diferentes de acolher, de enquadrar e de completar a formação”. Existem “abusos absolutamente inomináveis” que podem ser considerados “uma nova forma de escravatura”. E reforça: “é aquela escravatura em que o trabalhador não recebe e tem de agradecer o facto de não receber”.

Para resolver este problema, Manuel Pinto defende que a solução passa por “não aceitarmos tudo aquilo que as pessoas aceitam e nunca deveriam aceitar”.

Em defesa do acesso fechado à profissão

Sobre o distanciamento entre as empresas e a academia, Pedro Coelho considera que “é preciso deixar, de uma vez por todas, de andar de costas voltadas”. O jornalista e membro da organização do 4º Congresso dos Jornalistas defende um acesso fechado à profissão. Assim, para se ser jornalista deveria ser necessário ter um curso na área do jornalismo.

Uma posição diferente tem o jornalista e antigo presidente do Sindicato dos Jornalistas, Alfredo Maia, que afirma que o acesso aberto tem a vantagem de trazer para o jornalismo profissionais de várias áreas, com vidas e percursos que enriquecem o jornalismo.

Outro aspeto destacado por Alfredo Maia é o papel da tecnologia, que “origina vídeos «virais» sem conteúdo útil, textos instantâneos, directos estéreis, futilidade quanto baste”. Características que “tendem a privilegiar as capacidades meramente operativas e a negligenciar as de reflexão”, o que acaba por “cercear o juízo crítico”.