O distanciamento do leitor em relação ao repórter foi a questão que a jornalista do “Público” Catarina Gomes destacou na sua comunicação deste sábado, no 4.º Congresso.

“O número para o qual ligou não tem voicemail ativo, por favor tente mais tarde”. Foi com esta mensagem que Catarina Gomes se deparou quando tentou entrar em contacto consigo própria na redação do “Público”. A experiência serviu-lhe de inspiração para a comunicação que apresentou neste 4.º Congresso.

Com base na experiência, a jornalista concluiu que existem boas histórias que podem não ser contadas. “Os persistentes cidadãos que conseguem chegar à fala comigo ou com qualquer um dos meus colegas jornalistas por essas redacções fora, e que querem contar a sua história, são passados de telefone em telefone, ficam em espera. Ninguém os quer atender.”

Uma parte dos órgãos de comunicação social deslocaram-se dos centros das cidades para as periferias e com eles foram os jornalistas. Por outro lado, o aparecimento de novas formas de comunicação digital dá oportunidade aos jornalistas de se aproximarem do leitor. Catarina Gomes considera esta uma falsa aproximação.

“Poder-me-ão dizer que todos os jornalistas agora têm emails para os quais podem ser contactados, que agora há comentários online aos artigos que escrevem, que basta clicar no rato para sugerir correcções, que os jornalistas têm páginas de Facebook”, nota a jornalista. “E podem dizer que tudo isto tornou os jornalistas mais próximos das pessoas e isso é verdade, em certa medida. Mas não é a mais importante.”

“Não me comovo porque não tenho tempo”

 Para a jornalista o que é mais grave é a sedentarização da classe. Catarina Gomes realça que “cada vez mais difícil um jornalista sair da redação para ir à procura de ‘histórias’. As redações estão transformadas em bunkers onde dificilmente se entra e de onde se sai cada vez menos.”

Catarina Gomes no seu texto dá o exemplo do estudo de João Miranda no qual se conclui que “cerca de 20,5% dos jornalistas inquiridos raramente sai da redação e 3,7% nunca a abandona em reportagem.” Perder tempo a escutar uma história que, possivelmente, não será notícia é algo que se perdeu no jornalismo. A repórter salienta, ainda, que “não há tempo a perder a ouvir, quanto mais a escutar.”

“Sair da redacção, falar com pessoas provoca-nos sentimentos, ficar na redacção dessensibiliza-nos, distancia-nos do sofrimento.”

De profissionais fora da redação, passou-se a “viver numa bolha”, frisa Catarina Gomes. Com repórteres que se mantêm sentados na cadeira, nota-se o “empobrecimento do conteúdo” e até, na visão da profissional, uma consequente falta de compaixão. “Sair da redacção, falar com pessoas provoca-nos sentimentos, ficar na redacção dessensibiliza-nos, distancia-nos do sofrimento.”

Já perante os congressistas, Catarina Gomes terminou a sua apresentação reforçando que é preciso sair das redações.