Liberdade, precariedade, ética e futuro. Esses são apenas alguns dos temas que muitos profissionais esperam ver discutidos em profundidade no 4º Congresso dos Jornalistas Portugueses, a ter lugar de 12 a 15 de janeiro, em Lisboa, subordinado ao tema “Afirmar o Jornalismo”. As expectativas em relação ao evento foram o mote para que um grupo de jornalistas nacionais, que estiveram no “Colóquio Timor: Mil Palavras; Mil Imagens”, promovido pela Reitoria da Universidade de Coimbra, partilhassem as suas opiniões e reflexões.

Para Joaquim Reis, jornalista da RDP/RTP, é importante “pensar exatamente o que é o jornalismo hoje em dia, qual o papel dos jornalistas, questionar o rumo das coisas e denunciar o que não está bem”. Para este profissional, as redações de jornais, TV’s e rádios já não são um espaço de liberdade, nem refletem a pluralidade da sociedade, muito por conta de um “condicionamento” da profissão. “O jornalismo tem que continuar a ser uma profissão aberta”, defende Joaquim Reis, acrescentando que, mais do que um diploma, “interessa-me sobretudo que as pessoas provem que têm competências, talento e cultura”.

O despedimento de profissionais experientes também é motivo para preocupação. “Estamos a perder as referências de uma redação, e os que estão a entrar, são de forma altamente condicionada”, afirma, criticando ainda a falta de liberdade ocasionada pelos recibos verdes, e “a nebulosa que existe hoje em dia sobre quem é que detém os órgãos de comunicação social”. Segundo Joaquim Reis, não se quer “gente que saiba o que fazer, mas que se curve e baixe a servir. E essa sempre foi a negação do ser-se jornalismo. Um jornalista não baixa a servir. Deve ser isento, objetivo, mas nunca por nunca se baixar”.

Já Luciano Alvarez, jornalista do Público, acredita que os problemas que existiam há 19 anos estão completamente atuais e, até mesmo, se agravaram. “São dias muito difíceis. Não só o mercado de trabalho está fechado, como há cada vez mais trabalhos precários. Há cada vez menos jornalistas com saber dos tempos, e as redações têm que ser um misto de juventude e de menos jovens. Essa precariedade é uma das coisas que mais me preocupa”. Para Luciano Alvarez, o congresso também deve discutir seriamente “o jornalismo tablóide, que tem vindo a crescer em Portugal, e as suas consequências, uma vez que isso não é jornalismo. É outra coisa qualquer, menos jornalismo”.

Precariedade e futuro

Um dos temas mais referidos quando se questiona sobre o futuro da profissão é o da precariedade. O jornalista Luís Nascimento, que já trabalhou em vários órgãos de comunicação como Público e RTP, e atualmente está reformado, recordou o último congresso, em 1998, e destaca essa como uma das maiores mudanças. “Há uma crise que se arrasta há vários anos e seria exaustivo apontar as causas. Há uma insegurança que não existia”. Luís Nascimento também considera que as questões éticas e deontológicas têm que ser discutidas em profundidade. “Muitas vezes, em nome da guerra das audiências, de estratégias comerciais de aumentar tiragens, venderem mais jornais e captarem mais telespectadores, as regras do jornalismo, que estão escritas no estatuto e código, não são respeitadas. Espero que deste congresso saiam linhas de orientação para que as coisas mudem um pouco”.

Francisco Sena Santos, jornalista e professor da Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa, pretende que o congresso seja um espaço onde as discussões possam ser sustentadas por estudos académicos sobre o que está a acontecer no jornalismo. “Temos que discutir que informação é que está a ser proposta aos leitores, ouvintes e espetadores. Termos a noção da qualidade, do tipo de serviço e notícias que estão a ser levadas às pessoas”.

A mesma proposta é defendida por Adelino Gomes, jornalista, membro da Associação de Estudos de Comunicação e Jornalismo e ainda investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, que considera a discussão sobre o jornalismo um tema fundamental. “Sentindo nós que ainda é preciso jornalismo, devemos discutir que jornalismo é que os jornalistas sentem que devem fazer, e o que aprenderam na sua relação com as tais pessoas antigamente conhecidas como audiências. Estou interessado se vou detetar ainda a antiga arrogância de 150 anos de jornalismo unidirecional”, confessa. Questionado sobre o futuro da profissão, Adelino Gomes foi perentório: “Eu gostava muito de fazer a reportagem em direto do futuro do jornalismo”.