Portugal destaca-se a nível europeu pelos apoios estatais que concede à imprensa regional, um vasto universo que, em 2009, reunia 728 títulos, segundo dados da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. O impacto destas publicações na vida e desenvolvimento das comunidades locais não é, no entanto, muito claro. E entre os factores que contribuem para o seu sucesso parece estar a proximidade aos problemas dos cidadãos.

Entre 1991 e 2003 foram gastos pelo Estado mais de 208 milhões de euros, sobretudo no porte-pago, com vista a suportar os custos da expedição postal das publicações para os assinantes em território nacional e no estrangeiro, refere o jornalista Paulo Ferreira, autor de um estudo sobre a imprensa local e regional. O regime de incentivos estatais sofreu alterações em 2004, com vista a combater o amadorismo no exercício do jornalismo, assegurar a equidade entre empresas de comunicação regional e promover a leitura em escolas, bibliotecas e outras instituições. Os apoios passaram, assim, a dirigir-se mais às audiências do que às empresas jornalísticas, exigindo-se, por outro lado, o cumprimento de um período mínimo de edições ininterruptas e a profissionalização dos jornalistas e das redações.

O impacto destas publicações nas comunidades locais tende a variar consoante a qualidade dos conteúdos e, sobretudo, a proximidade aos leitores. Quando questionado pela Lusófona sobre a responsabilidade do jornalismo local, Paulo Ferreira, atualmente diretor de Conteúdos Informativos do Porto Canal, evoca a sua experiência, há uns anos, num semanário de Trás-os-Montes: as vendas da imprensa local nos principais balcões daquela região eram superiores às dos jornais nacionais, com exceção dos desportivos. Para o jornalista e investigador, estes resultados deviam-se, não a uma eventual espetacularidade das peças publicadas, mas ao facto de “falarem de temas que mexiam com a vida das comunidades”.

Esta proximidade das publicações aos problemas reais das populações constitui, por outro lado, um forte incentivo à colaboração e participação dos leitores, que se tornam, frequentemente, nas principais fontes de notícias. A cooperação ocorre quando “as comunidades sentem que o jornal tem alguma capacidade para ajudar a resolver os seus problemas”, sublinha Paulo Ferreira. Admite, no entanto, que a estreita colaboração e proximidade tem um lado perverso, traduzido em pressões políticas, económicas ou outras, ameaçadoras da liberdade de imprensa. Trata-se de um constrangimento real, com o qual a imprensa regional tem de conviver e criar mecanismos de defesa.

No que diz respeito ao impacto da imprensa regional no desenvolvimento das regiões, o jornalista e investigador afirma que não existem estudos sobre a realidade portuguesa e que não é fácil criar mecanismos de avaliação. Recorre, contudo, a pesquisas desenvolvidas sobre a Galiza, que assinalam “uma forte correlação entre uma e outra variável”. Também nesta região do norte de Espanha, os órgãos regionais ganham as preferências dos leitores. As mesmas análises, citadas num estudo de Jorge Pedro Sousa, da Universidade Fernando Pessoa, mostram que, em 2001, os diários galegos vendiam cerca de 225 mil exemplares (77% do mercado), contra 67 mil da imprensa madrilena (23%), resultando num volume de negócios próximo dos 150 milhões de euros por ano.

Pressões e dependências
Em Sintra, o segundo concelho de Portugal com mais habitantes, existem pelo menos cinco jornais locais que, nos últimos anos, têm sofrido os efeitos da crise económica do país. É o caso do Jornal de Sintra, um semanário de referência da região. A diretora da publicação, Idalina Grácio de Andrade, contou à Lusófona que a crise nas empresas de mármore, motores da economia do concelho, teve repercussões na saúde financeira do jornal. A sobrevivência do semanário depende quase exclusivamente, da publicidade mas, apesar das dificuldades e de ter como único apoio o porte-pago (40% no valor das expedições postais), o título é “visceralmente independente” dos poderes económicos e políticos locais, assegura a responsável.

Ana Borges, técnica de imagem e comunicação da freguesia de Massamá, tem uma percepção negativa sobre a dependência dos jornais locais face às autarquias. Sobretudo em períodos de campanha, “aumentam as pressões políticas e as peças de comunicação ou publicidade eleitoral”, diz à Lusófona, admitindo que algumas notícias negativas não cheguem às páginas destas publicações. Ana Borges destaca ainda que grande parte dos conteúdos destes jornais limita-se a anunciar eventos organizados pelas autarquias, a noticiar visitas dos representantes a escolas e outras instituições, obras realizadas ou a realizar e fornecem informações sobre serviços prestados pelas instituições da região.

“Diga de sua Justiça”
Apesar dos constrangimentos e dependência das agendas públicas, o Jornal de Sintra possui no seu site um espaço que merece referência pelo exemplo de proximidade com os leitores. “ Diga de sua Justiça” é uma secção onde os cidadãos podem denunciar os problemas locais, de modo a sensibilizar as entidades com poder para os resolver. Por exemplo, se um habitante enviar ao jornal uma informação sobre um buraco no passeio da sua rua, a queixa é publicada, pressionando a câmara municipal a tomar medidas. A proximidade entre a população e a autarquia, promovida pelo jornal, materializa, assim, o impacto deste tipo de imprensa no desenvolvimento regional.

A subsistência da imprensa local e regional parece depender, assim, da profissionalização da atividade jornalística e da cobertura dos temas que tocam a vida das populações. Como defende Paulo Ferreira, ao promover a proximidade com os cidadãos, as empresas de comunicação social ganham audiências e, consequentemente, maior retorno financeiro.